Caso de ex-assessora da Igualdade Racial lembra que minorias podem ser racistas

Raphael Tsavkko Garcia
5 min readOct 6, 2023

Lógica de superioridade de um grupo contamina até mesmo as pessoas discriminadas

Em janeiro de 2022, o antropólogo Antonio Risério escreveu na Folha de S.Paulo: “O dogma reza que, como pretos são oprimidos, não dispõem de poder econômico ou político para institucionalizar sua hostilidade antibranca. É uma tolice. Ninguém precisa ter poder para ser racista, e pretos já contam, sim, com instrumentos de poder para institucionalizar o seu racismo”.

Foi o que bastou para que uma pequena revolução tivesse sido desencadeada. De um lado estavam aqueles que exigiam a cabeça de Risério, protestando contra a audácia de ele ter dito o óbvio: todo tipo de racismo — entendido como qualquer ideologia que prega a superioridade de um grupo racial sobre outro — é detestável e que qualquer indivíduo pode ser racista. Do outro encontrava-se a maioria silenciosa que por muito tempo foi calada pelos chamados identitários através de cancelamentos, boicotes e intimidação.

Apesar da aparente vitória dos identitários que conseguiram que a Folha não mais permitisse um debate desse tipo em suas páginas, o fato é que mais e mais vozes começaram a se levantar contra o autoritarismo dos autointitulados progressistas. Quase dois anos depois, porém, a sociedade brasileira enfrentou algo impensável: uma ativista negra pregando racismo contra brancos foi publicamente criticada e perdeu seu cargo público. A ironia? Marcelle Decothé era assessora especial de Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial num governo liderado pela esquerda.

Até mesmo notórios identitários viram-se forçados a aplaudir a decisão de demitir a assessora, ainda que de maneira tímida. Outros preferiram o silêncio. Obviamente a maioria não concordou que a assessora tivesse sido racista, mas “apenas” preconceituosa. Afinal, se não há racismo de negros contra brancos, então Decothé não fez nada de errado. No mínimo, apenas teria se expressado de forma inadequada contra o “opressor”.

No geral, o episódio reeditou tentativas por parte de movimentos identitários de reinterpretar como forma de reparação histórica aquilo que, no fundo, é racismo. “Torcida branca, que não canta, descendente de europeu safade… Pior de tudo, pauliste”, escreveu Decothé em…

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Raphael Tsavkko Garcia

Journalist, PhD in Human Rights (University of Deusto). MA in Communication Sciences, BA in International Relations. www.tsavkko.com.br