As eleições brasileiras e o papel da religião, entrevista com Levi Araújo, Guilherme Burjack e Silas Fiorotti

Nas eleições brasileiras, como explicar o crescimento do fundamentalismo evangélico e qual o papel dos pastores progressistas?

Conversei com os pastores batistas Levi Araújo e Guilherme Burjack, além do doutor em antropologia e coordenador do projeto “Diversidade religiosa nas escolas” Silas Fiorotti, para entender o papel do conservadorismo religioso, em particular evangélico, nas eleições para vereador e prefeitos. Além disso, conversei com eles sobre como se comporta o eleitor evangélico, qual o poder efetivo de pastores e lideranças

Pastor Levi Araújo:

1) Religião sempre teve um papel de destaque nas eleições brasileiras, mas há algo de diferente hoje (com Bolsonaro e o crescimento do número de eleitores evangélicos, etc)?

Desde quando a os europeus chegaram às terras nativas brasileiras, desde as Capitanias Hereditárias, a religião sempre teve destaque e ingerência nos palácios do Poder. Passando pelo Império e pela Republica, os poderosos e os religiosos sempre souberam cuidar da comunhão de interesses dos poderosos da politica e da economia. Com a maioria dos pastores evangélicos a lógica é a mesma, ao seu modo, espiritual e teologicamente, eles acreditam que estar no poder e ao lado dos poderosos é a vontade de Deus.

Por essa e outras razões a maioria dos evangélicos conservadores fundamentalistas estão fervorosamente excitados dizendo: Agora é a nossa vez, finalmente chegou a nossa vez. Essas pessoas acreditam piamente que Deus os está exaltando após décadas de rejeição, desrespeito e humilhação, essas pessoas acreditam mesmo que Deus quer mostrar para toda a sociedade que os evangélicos são o único Povo de Deus na face da Terra.

O messias e populista Bolsonaro deu isso tudo a essa grande maioria de lideres evangélicos e parte de seus rebanhos. A maioria dos evangélicos brasileiros — tradicionais, pentecostais, neopentecostais e apostólicos — estão seguindo um falso messias e passando pano para ele.

2) Como se comporta o eleitor evangélico, ele segue o pastor ou tem posição mais independente?

Todo evangélico, como qualquer segmento da nossa sociedade, quer ser respeitado em sua visão de mundo e seu lugar de fala.

Alguns dos evangélicos transformaram os seus valores e princípios morais em bandeira e pauta moral que deve ser imposta a toda a sociedade, a maioria destes, tem pastores que se apresentam como seus representantes divinos mais próximos para que todos os descrentes sejam evangelizados e santificados na marra e por decreto. A maioria desses evangélicos conservadores e fundamentalistas continuarão votando em qualquer messias populista — até os imorais e mentirosos — que defenda a sua Pauta Moral.

Todavia, porém e entretanto, há muitos evangélicos — lideres ou não — que não aceitam, rejeitam e denunciam essa postura da maioria dos evangélicos conservadores e fundamentalistas que são mais discípulos de outros heróis da bíblia do que de Jesus de Nazaré.

A maioria dos evangélicos seguem o seu pastor quando a sua fé e pauta moral são defendidas, mas os grupos de independentes estão aumentando e se articulando mais.

3) Qual o papel do cristão, mais especificamente do evangélico progressista diante de candidatos conservadores dizendo falar por jesus, diante de um governo conservador com oo Bolsonaro?

A cada dia fica mais claro que existem evangélicos que são mais discípulos de Moisés, Elias, Jefté, Davi, Paulo, Pedro, João e Tiago do que discípulos de Jesus de Nazaré, precisamos usar a própria Bíblia para explicar e profetizar essa verdade.

Falar de Jesus de Nazaré, mostrar os seus ensinos e mandamentos e o seu jeito de ser gente e se relacionar com as pessoas, eis a mais poderosa e constrangedora maneira de confrontar os fundamentalistas e dialogar com os conservadores.

Há dialogo com os conservadores, no caso dos fundamentalistas, só com exorcismo e evangelização.

Um seguidor de Jesus de Nazaré — chamado de progressista — tem que saber separar entre os conservadores e os conservadores fundamentalistas que apoiam o governo Bolsonaro.

Quanto aos conservadores fundamentalistas que apoiam o governo Bolsonaro cega e acriticamente, o nosso papel é profetizar, denunciar e responsabiliza-los por esse desgoverno letal e as suas necropolíticas que atentam contra toda a forma de vida.

4) E o papel do pastor progressista?

Em primeiro lugar, voltar a ser Evangélico Raiz, não descuidar de sua vida devocional fervorosa e pregar o Evangelho da Maravilhosa Graça de Jesus de Nazaré na unção do Espírito Santo, diferenciando o trigo do joio, o trigo dos irmãos e irmãs da igreja, do joio dos lideres que insistem em transformar o redil de ovelhas em curral eleitoral. Em segundo, profetizar sistemática e veementemente contra os lideres religiosos cristãos manipuladores que apoiam acriticamente o messias Bolsonaro, responsabilizando-os pelas necropolíticas do Governo que apoiam e pelos seus efeitos nefastos que oprimem as minorias mais fragilizadas da nossa sociedade brasileira, aumentando ainda mais a desigualdade e a injustiça social.

Pastor Guilherme Burjack:

1) Religião sempre teve um papel de destaque nas eleições brasileiras, mas há algo de diferente hoje (com Bolsonaro e o crescimento do número de eleitores evangélicos, etc)?

O campo evangélico vem sendo bem capitalizado pela direita desde a Assembleia Constituinte, principalmente os pentecostais, tomaram gosto pela política. O voto de cabresto do pastor, do grupo religioso, do líder, da Assembleia de Deus, e mais evidentes no interior, nos rincões — você vê isso com troca de terreno, aprovação de projeto de construção, apoio para eventos da igreja, patrocínios, etc. Isso sempre ocorreu. Mas de maneira geral, em termos de Brasil, acho que o engajamento do eleitor evangélico não está relacionado a um espectro ideológico em si, mas a uma pauta do momento — a pauta do momento da eleição do Lula era emprego, a possibilidade de entrar na universidade, comprar um carro, uma pauta de prosperidade e consumo. E isso tá muito ligado à vitórias. Me lembro de um irmão que conseguiu um financiamento do Bradesco e o talão era do tamanho do Novo Testamento. Mas estava feliz porque tinha crédito. E a sensação de ter crédito era a sensação de prosperidade financeira.

O evangélico não tem um espectro evangélico definido porque ajudou a eleger FHC 2 vezes, Lula 2 vezes, Dilma 2 vezes. Bolsonaro ganhou muito espaço entre os evangélicos por um pauta identitária. Foi prioritariamente o trabalho dele entre os evangélicos.

2) Como se comporta o eleitor evangélico, ele segue o pastor ou tem posição mais independente?

A partir da minha bolha de eleitores do estado de Goiás: Falando das pentecostais, todo candidato da igreja ganha. Quanto maior o campo, maiores as chances dele ser campeão. Então você vai encontrar campos com 250 igrejas. Entre os pentecostais isso é mais factível — o campo trabalha pra eleger um candidato.

As eleições majoritárias [prefeito, governador] há uma certa liberdade vigiada, um campo não vai eleger um prefeito ou um governador, mas pra eleições para vereador, deputados, sim, dá pra monitorar um pouco mais de perto e saber quais foram as regionais que foram fiéis ou que não foram fiéis. Entre os “históricos” é mais complicado. á um apoio explícito para eleições majoritárias, no caos da presidência da república é mais fácil apontar direções desde o púlpito, mas para prefeito e governador você tem dois ou três grupos representados na igreja e como a maioria das igrejas históricas possuem presbitérios ou são congregacionais, o pastor fica melindrado em apontar em uma direção e perder parte dos votos pra seus próprios projetos dentro da comunidade, então ele, entre aspas, torna o púlpito mais democrático, dando oportunidade ou pra todos os candidatos, ou pra candidato nenhum.

3) Qual o papel do pastor progressista?

O pastor progressista deveria esperar o período eleitoral para ensinar sua comunidade quais são os direitos que ela possui em relação aos seus políticos. Quais são as ferramentas que ela possui pra fazer com que prefeitura, vereadores e todos os outros órgãos funcionem de fato. Ensinar que não estamos me uma posição de medo e nem de serventia ao poder público, mas que somos os patrões e não devemos favor para políticos e sim devemos cobrar deles. O principal é o papel de educação cívica. Ensinar ao seu grupo quais poderes a população possui para fazer com que seus representantes trabalhem a contento. Outra coisa é perceber e dar a oportunidade para que movimentos sociais ganhem visibilidade na comunidade de fé. Poucas vezes movimentos sociais tem púlpito para falar coisas relacionadas à própria comunidade local, como o movimento dos sem teto, dos sem terra, os sindicatos, etc. Não dá pra ficar levantando bandeira a cada 2 anos, mas sim fazer um trabalho constante de educação do fiel.

Silas Fiorotti:

1) Religião sempre teve um papel de destaque nas eleições brasileiras, mas há algo de diferente hoje (com Bolsonaro e o crescimento do número de eleitores evangélicos, etc)?

O grande crescimento dos evangélicos no Brasil é algo que não pode ser ignorado, os evangélicos já constituem aproximadamente 31% da população brasileira e caminham para se tornar o maior grupo religioso. Nas últimas duas décadas, os evangélicos aperfeiçoaram sua atuação na política partidária: adotaram amplamente a estratégia da barganha, do “toma-lá-dá-cá”; ampliaram sua presença na direção dos partidos políticos; negociaram cargos, perdão de dívidas das igrejas e concessões midiáticas com o governo federal; beneficiaram-se com a redução do tempo e do financiamento das campanhas eleitorais; e transformaram as igrejas evangélicas nos principais currais eleitorais.

As grandes igrejas evangélicas desfrutam de uma liberdade religiosa irrestrita para desempenhar diversas atividades que extrapolam os objetivos religiosos, inclusive atividades criminosas, e elas estabeleceram uma grande aliança entre si que praticamente acabou com a concorrência acirrada por fiéis. Acredito que esta é uma novidade relevante, os líderes das grandes igrejas evangélicas não estão unidos somente em torno de questões pontuais como a defesa da liberdade religiosa, a defesa de seus impérios midiáticos e de determinadas pautas morais; atualmente eles estão muito mais coesos e estão levando adiante um projeto de hegemonia religiosa. Neste sentido, estes líderes das grandes igrejas evangélicas já não estão satisfeitos com a posição dos evangélicos entre o chamado “baixo clero” do Congresso Nacional e com a postura de subserviência aos governos, ainda mais com a eleição de Bolsonaro que é um político proveniente do “baixo clero”.

Ao pensar no modo como os evangélicos se relacionam com a cultura política brasileira, podemos constatar algumas mudanças: (1) um primeiro período com a maior parte dos grupos evangélicos adotando uma postura de auto-exclusão e afastamento das atividades políticas; (2) um outro período marcado pela cooptação dos políticos evangélicos através de acordos fisiológicos e clientelistas, principalmente durante os governos do Lula (2003–2010) e da Dilma (2011–2016); e (3) nos últimos anos, o período marcado pela aliança entre as grandes igrejas evangélicas e a participação política mais ativa de seus líderes.

2) Como se comporta o eleitor evangélico, ele segue o pastor ou tem posição mais independente?

O eleitor evangélico mostrou-se o mais vulnerável e suscetível a seguir a opção política indicada por seu líder religioso. Os próprios líderes evangélicos atuam direta ou indiretamente na política partidária. São pastores, reverendos e bispos evangélicos, ou seus filhos e outros familiares, que fazem parte das “bancadas evangélicas” no Congresso Nacional e nas outras câmaras, que estão na direção de alguns partidos políticos e que ocupam cargos públicos. Esta atuação dos líderes evangélicos caracteriza-se como abuso do poder religioso e prejudica o jogo democrático brasileiro, porque os membros das igrejas evangélicas se sentem obrigados a seguirem os mesmos posicionamentos políticos de seus líderes.

Mesmo quando os líderes evangélicos dizem que não misturam religião com política, é possível constatar que eles participam da política partidária de forma dissimulada. Por exemplo, quando há convocação para “jejum e oração pelo Brasil” significa que é no sentido do apoio a determinado governo ou candidato, mas quando há convocação para “jejum e oração contra a iniquidade” é no sentido da oposição a determinado governo ou candidato. Quando há menção ao princípio da submissão às autoridades é somente em relação aos governos que agradam os respectivos líderes evangélicos, caso contrário isto não é mencionado.

3) Qual o papel do cristão, mais especificamente do evangélico progressista diante de candidatos conservadores dizendo falar por Jesus, diante de um governo conservador com o Bolsonaro?

É decepcionante pensar que os evangélicos de esquerda também têm responsabilidade pela grande despolitização dos evangélicos e pela manutenção do autoritarismo dentro das igrejas evangélicas no Brasil. Diversos segmentos evangélicos se uniram, durante todo o ano de 2003, para alterar o novo Código Civil e impedir a mudança no estatuto jurídico das igrejas. Foi algo que impediu a democratização dentro das igrejas evangélicas e marcou a formalização da chamada “bancada evangélica”. Por outro lado, a cultura política brasileira com sua tradição autoritária e com o predomínio dos acordos fisiológicos e clientelistas impede a democratização e a ampliação da participação política da população e dos movimentos sociais, algo que foi denunciado pelas manifestações de junho de 2013. O autoritarismo e o conservadorismo dos evangélicos se relacionam bem com a tradição autoritária da cultura política brasileira.

Os evangélicos precisam urgentemente democratizar e descentralizar o poder em suas próprias igrejas, precisam adotar estatutos e formas de organização em que membros leigos, homens e mulheres com opiniões e posicionamentos divergentes, possam participar ativamente das assembleias, dos debates e das decisões nas igrejas. Não faz sentido os evangélicos de esquerda simplesmente apresentarem candidaturas de pastores de esquerda ou propostas de criação de uma “bancada evangélica” de esquerda para combater o conservadorismo, porque isto também vai no sentido da despolitização, do autoritarismo e da cultura do rebanho. É preciso criar espaços de diálogo e de participação dentro das igrejas para que os evangélicos tenham autonomia, aprendam ler a Bíblia em sua diversidade, possam imaginar e criar um tipo de comunhão de fé que conviva fraternalmente com divergências, um tipo de vivência religiosa sem veneração de lideranças autocráticas.

4) O que explica o crescimento do conservadorismo evangélico no Brasil?

Acredito que não há apenas um aspecto que explica o crescimento do conservadorismo evangélico. É importante destacar o fato da adesão ao conservadorismo dar uma sensação de segurança a partir do compartilhamento de valores comuns e de uma identidade, as pessoas passam a fazer parte de uma comunidade religiosa que age a favor do bem e contra o mal. Estes evangélicos supostamente são valorizados pelo comprometimento com o grupo e pela conduta moral. Neste sentido, de forma bastante precária e insatisfatória, o conservadorismo evangélico tenta dar respostas e segurança às pessoas diante das mudanças, crises, incertezas e tendências neoliberais presentes atualmente na sociedade brasileira.

Além disso, o conservadorismo é continuamente associado a alguns elementos muito difundidos no meio evangélico e na cultura pública evangélica, por exemplo: a identidade marcada pelo ressentimento de minoria religiosa menosprezada, discriminada e perseguida; a ideia de que os evangélicos precisam ter seu lugar reconhecido e respeitado no espaço público; a ideia conspiratória de que surgirá uma grande perseguição contra evangélicos; a ideia de restauração dos “verdadeiros valores”; a ênfase moral; a crítica às intervenções estatais nos âmbitos familiar, educacional e religioso; os ataques ao aborto e à homossexualidade; o combate aos “evangélicos liberais”. Na medida em que adota elementos do meio evangélico como alguns valores morais e também formas sensoriais, o conservadorismo evangélico é capaz de entrar em contato com grande parte da população pobre e periférica de uma maneira muito mais persuasiva do que outros conservadorismos e movimentos de direita mais secularizados.

Os líderes das grandes igrejas evangélicas, de forma oportunista, sabem utilizar muito bem o conservadorismo e as características do meio evangélico a favor de seus próprios interesses e do projeto de hegemonia religiosa. Assim, torna-se difícil determinar precisamente se algo representa o conservadorismo evangélico ou se representa apenas o oportunismo das lideranças evangélicas.

Journalist, PhD in Human Rights (University of Deusto). MA in Communication Sciences, BA in International Relations. www.tsavkko.com.br

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