Adeus ETA, seja bem vinda a paz

Raphael Tsavkko Garcia
3 min readMay 2, 2018

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Amanhã (4 de maio) ao meio dia (7 da manhã no horário do Brasil) o grupo basco ETA irá se dissolver definitivamente e o anúncio oficial será feito em Kanbo, no Pais Basco Francês, com a participação de personalidades políticas de diversos partidos, artistas e verificadores internacionais.

Kanbo, ou Cambo-les-bains, é uma cidadezinha de 6 mil habitantes entre Baiona e St Jean Pied-de-port (ou Donibane-Garazi). Passei por lá umas duas vezes, é uma típica cidadezinha do interior basco francês, pacata e organizada.

São quase 60 anos de luta (armada) da ETA, que nasceu para lutar pela independência do País Basco e contra o regime franquista. No fim dos anos 70 intensificou sua luta pela independência, nos anos 80 travou a chamada Guerra Suja contra grupos fascistas financiados pelo governo espanhol (com participação especial de Felipe González, primeiro ministro pelo PSOE).

Mataram, morreram, foram saudados como heróis por uns, como criminosos por outros. Algumas de suas ações foram louvadas (como Manzanas ou Carrero Blanco) outras firmemente repudiadas (como o Hipercor, diversos ataques à bomba que valeram mesmo críticas internas e rachas). Muito já se escreveu e muito ainda será escrito sobre o grupo. O importante, agora, é a nova etapa política no País Basco que se abre.

Algumas questões permanecem: a ETA deu todos os passos para seu fim SEM qualquer participação do Estado que ainda mantém uma política criminosa de espalhar presos por prisões distantes do País Basco, ainda tortura e criminaliza o movimento pela independência. A ideologia do “Tudo é ETA” permanece. Manifestações e atividades de esquerda pró-independência — e até briga de bar — seguem sendo criminalizadas e consideradas “terrorismo”, vide o caso dos jovens de Altsasu e sua criminalização absurda.

A ETA pediu perdão por suas atividades (que vitimaram inocentes), pediu perdão pelo dano causado, mas o Estado espanhol (e em especial PSOE e PP que se revezam no poder) não pensam em em pedir perdão por sua repressão e crimes contra o povo basco- ou em mudar suas políticas.

Abre-se uma nova etapa política no País Basco e na Espanha, mas até o momento os passos foram e são dados exclusivamente por um lado — não à toa a situação da Catalunha, em que o Estado responde à vontade popular com a mesma verve de criminalizar tudo e todos.

Vale um lembrete, é impossível compreender a situação da Catalunha hoje sem entender a relação do Estado espanhol com a ETA e a criminalização do soberanismo basco (que não são a mesma coisa). Os passos dados na Catalunha são muito semelhantes — e assustadores.

A Espanha se acostumou a lidar com seus problemas exclusivamente por vias violentas, repressivas e através do uso do aparato policial e judicial. O País Basco conhece bem essa história, a Catalunha está conhecendo mais de perto.

Enfim, Agur ETA, ongi etorri bakea.

Hoje a ETA declarou sua dissolução através de comunicado lido e divulgado durante ato no Henri Dunant Centre, em Genebra. Amanhã se dará o ato em Kanbo.

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Raphael Tsavkko Garcia

Journalist, PhD in Human Rights (University of Deusto). MA in Communication Sciences, BA in International Relations. www.tsavkko.com.br